Artigo foi publicado na Editoria de Opinião do jornal Gazeta do Povo

O empresário e vice-presidente da Fiep, Carlos Walter Martins Pedro: “não há sinais de que o governo vá atacar os problemas estruturais do país”.
(OLHO) “Para o empresário brasileiro, navegar é preciso. Sobreviver também”
O empresário e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Carlos Walter Martins Pedro, analisa em artigo publicado na Gazeta do Povo desta sexta-feira, o pacote econômico anunciado pela presidente Dilma Rousseff. Dono da ZM Bombas, empresa que exporta 20% de sua produção, Carlos Walter estava entre os 500 empresários que viajaram a Brasília para ouvir o anúncio das novas medidas anunciadas pelo governo para estimular a combalida indústria nacional. Saiu de lá, juntamente com seus pares, carregando um pacote acanhadinho, que prevê a redução simbólica de impostos para apenas alguns setores da indústria (por que não para todos?) e a ampliação do crédito oferecido pelos bancos públicos.
Desde o estouro da crise financeira internacional, em 2008, o governo editou seis pacotes de incentivo à indústria brasileira. Ou seja, um a cada oito meses. Os resultados são pífios. Se as medidas destinavam-se a injetar vigor no parque fabril e reduzir a perda de competitividade em relação aos competidores internacionais, revelaram-se inócuas.
Em seu artigo, Carlos Walter critica as medidas paliativas e relembra que a indústria nacional só será competitiva com ações de longo prazo que contemplem as reformas tributária, fiscal e trabalhista. O empresário enfatiza, ainda, a importância das feiras de negócio como espaço para os debates em torno da conjuntura econômica brasileira. Abaixo o artigo na íntegra.
Incentivo à indústria ou o mais do mesmo?
CARLOS WALTER MARTINS PEDRO
O pacote de desoneração de impostos anunciado pela presidente Dilma Rousseff está longe de resolver as questões cruciais que envolvem o custo de se produzir no país.
Como disse Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), as medidas têm o gosto do “mais do mesmo”. “É positivo, mas não é suficiente para resolver o problema grave de competitividade da indústria nacional”.
E não se trata de chorumela empresarial. Mesmo com a desoneração bilionária da ordem de R$ 60 bilhões, o parque fabril continuará sofrendo com a política cambial do governo, com a infraestrutura precária que encarece sobremaneira os produtos que chegam ao consumidor, e com a alta carga de impostos.
Coincidência ou não, no mesmo dia em que o governo federal anunciava o pacote, o impostômetro da Associação Comercial de São Paulo atingia a marca dos R$ 400 bilhões em tributos federais, estaduais e municipais pagos pelo contribuinte apenas nos três primeiros meses do ano. Some-se a isso a maior taxa de juros praticada no mundo e temos a combinação perfeita para que os produtos chineses invadam o mercado nacional.
Em uma das grandes redes de supermercados de Curitiba, constatou-se que 7% dos produtos comercializados vêm da China. É um caso emblemático. Na última década, só o Paraná aumentou dez vezes os gastos com mercadorias importadas do país asiático. Em 2006, o estado comercializava US$ 344 milhões em produtos chineses. Cinco anos depois, essa cifra alcança US$ 3 bilhões.
O resultado é um embate concorrencial cujo vencedor já é conhecido na largada. Sem o controle dos gastos públicos, sem a adoção de uma política tributária, fiscal e trabalhista voltada para o crescimento econômico do país, o governo transfere renda e empregos para o exterior e ameaça o parque produtivo nacional com a desindustrialização.
Dados “silenciosos” comprovam essa tendência e foram anunciados pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), Edson Campagnolo, em discurso recente na Assembleia Legislativa. Em 1985, a indústria respondia por 27% do PIB nacional. Em 2011, esse índice foi inferior a 16%. Um de cada cinco produtos industrializados hoje no país é importado. O porcentual de 20% relativo à importação pode não parecer significativo, contudo há de se levar em conta que muitas das mercadorias Made in Brasil possuem matérias primas e componentes importados.
Há benefícios na medida adotada pelo governo Dilma ao isentar a contribuição previdenciária de 15 setores da indústria e dar preferência a medicamentos e veículos pesados nas licitações promovidas pela administração federal, ainda que os preços se apresentem com até 25% de ágio. Mas não há sinais de que o governo vá atacar os problemas estruturais do país. “No Brasil, o empregador é punido por empregar”, disse a economista e comentarista da Globo Miriam Leitão, referindo-se à principal medida de desoneração anunciada pela presidente Dilma. É também punido por trabalhar, por contratar mais funcionários e por garantir maiores salários.
O debate está colocado e passa por movimentos como o “Grito de Alerta”, que denuncia o processo de desindustrialização, pelo fortalecimento das entidades de classe do empresariado e dos trabalhadores e também pelas feiras técnicas realizadas em todo o país, que, além de palco de prospecção de negócios, tornaram-se também um excelente espaço para realização de debates sobre a conjuntura econômica do Brasil e sobre alternativas a serem estudadas, que garantam a competitividade da indústria nacional e a absorção de novas tecnologias. Para o empresário brasileiro, navegar é preciso. Sobreviver também.
Carlos Walter Martins Pedro, empresário, é presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Maringá (Sindimetal) e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).















